Pesquisa da UFSCar revela aspectos do sofrimento dos trabalhadores nos canaviais

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Lúcio de Verçoza, autor da tese, junto à orientadora (à esquerda), durante premiação - divulgação

Lúcio de Verçoza, autor da tese, junto à orientadora (à esquerda), durante premiação – divulgação

Com prêmio de melhor tese da Rede de Estudos Rurais, estudo analisou condições de trabalho e saúde dos canavieiros

 

Cortadores de cana convivendo com dores, cãibras, cicatrizes no corpo e na alma. Para comprovar o nexo causal entre o trabalho e o adoecimento dos trabalhadores do corte da cana, o pesquisador Lúcio Vasconcellos de Verçoza se propôs a estudar o tema da saúde dos canavieiros. Sua pesquisa de doutorado, desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação da professora Maria Aparecida de Moraes Silva, foi premiada como melhor tese no VII Encontro Nacional da Rede de Estudos Rurais. O evento ocorreu na cidade de Natal, de 29 de agosto e 1º de setembro, e a Rede publicará a pesquisa em formato de livro, com lançamento previsto para o início de 2017.
O título do trabalho premiado, “Os saltos do ‘canguru’ nos canaviais alagoanos”, faz referência a um dos pontos que mais chamou a atenção de Lúcio durante a pesquisa de campo. “Nessas andanças, em busca do que não aparece no saco de açúcar e nas bombas de etanol, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a presença do ‘canguru’. É comum ouvir os trabalhadores canavieiros falando sobre ele. É uma palavra ressignificada: não significa o animal australiano, porém, uma sequela do excesso de trabalho. O ‘canguru’ é descrito pelos canavieiros como ‘um tipo de fraqueza que dá na gente, e chega cãibra por todos os cantos’”, conta Lúcio, reproduzindo uma das falas dos trabalhadores. “Eles relataram que quem vivencia esse processo generalizado de cãibras costuma encolher os braços junto ao corpo, de tal forma, que se assemelha a posição das patas do animal australiano. O nome ‘canguru’ decorre dessa trágica e surreal semelhança. Em muitos casos o trabalhador não consegue, sequer, clamar por socorro, pois a cãibra pode atingir até a língua. Como é possível aceitarmos um trabalho que gera perda de controle sobre o próprio corpo?”, questiona o pesquisador.
Na tese, o principal desafio foi articular duas perspectivas de análise – saúde e sociologia – que costumam caminhar separadas, segundo Lúcio. “Para atingir esse objetivo, foram realizadas pesquisas de campo, entrevistas orientadas pela metodologia da história oral, registros fotográficos; além disso, foram efetivados: teste ergométrico, monitoramento da frequência cardíaca durante o trabalho, aplicação de Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares e avaliação física – esses procedimentos contaram com a colaboração de médicos e educadores físicos”.
Para entender a relação entre o trabalho e o sofrimento em sua diversas formas, o pesquisador descreve os procedimentos do trabalho e como ocorrem as relações com a indústria canavieira. “O trabalhador deve agarrar com um dos braços a touceira de cana, ao mesmo tempo em que tem que se agachar e, com o outro braço, golpear com o podão para cortar a cana o mais rente possível do solo; depois é preciso se erguer e carregar a matéria-prima cortada até o centro do eito. Esse é o ciclo dos movimentos do corte da cana, que se repete incessantemente em meio à fuligem e sob o calor inimaginável. A repetição desse ciclo ocorre por horas, dias, meses e por safras. Tudo isso é feito em ritmo frenético, pois o salário é por produção: eles ganham 6,72 reais por tonelada cortada”, descreve Lúcio. “Para agravar ainda mais, as usinas roubam na pesagem da cana, o que rebaixa ainda mais os salários”, completa.
Segundo Lúcio, o estudo demonstrou que o dispêndio de energia (medido em carga cardiovascular) desse labor é muito acima do limite do aceitável. “Para se ter uma ideia do que isso significa, os canavieiros que participaram do estudo atingiram picos de frequência cardíaca máxima de até 200 batimentos por minuto – indo além da frequência máxima teórica! – e impressionante gasto calórico de até  5.103 kgcal!”, revela. “Essas condições de trabalho, marcadas pela superexploração, desgasta prematuramente a força de trabalho dos cortadores de cana, fazendo com que muitos fiquem impossibilitados de trabalhar ainda na flor da idade. Além disso, os trabalhadores estão submetidos ao risco de morte súbita”.
Para tolerar a dor, o estudo reforça que muitos canavieiros trabalham a base de automedicação para suportar o insuportável e atingir a média mínima diária, pois isso determina quem terá emprego na próxima safra – a maioria das usinas alagoanas exige uma média mínima diária de 7 toneladas de cana. “Após várias safras de labor, grande parte desses trabalhadores não consegue mais se empregar no corte da cana”, revela o sociólogo.

Dor psíquica e dor moral
Na  pesquisa, Lúcio ainda abordou as diversas dores com as quais os trabalhadores canavieiros convivem, que vão muito além da dor física. “Não se trata apenas de uma dor corpórea; ela também é psíquica e moral, pois, como afirma a professora Maria Aparecida, não atinge somente o corpo, atinge o fundo do ser: a condição humana”, analisa.
“Não existe somente o sofrimento de trabalhar com dor em uma atividade que exige tanto do corpo, mas também a humilhação na ameaça de demissão e na acusação de que não haveria dor, mas sim “manha”. Situações desse tipo expressam uma dupla dor: tanto corpórea, quanto moral. Quando o trabalhador não suporta mais manter os níveis de produtividade exigidos pela agroindústria canavieira, é porque a sua força de trabalho já perdeu “sacarose”, e ele é prematuramente descartado pela usina. Os descartados lidam com o sentimento de vergonha e com o desejo de demonstrar que o não-trabalho é algo contrário a própria vontade, de provar que não são preguiçosos ou vagabundos”, afirma o pesquisador.

Sobre o prêmio
O concurso Maria Nazareth Baudel Wanderley, criado pela Rede de Estudos Rurais neste ano de 2016 e cuja primeira edição premia o trabalho de Lúcio, destina-se a teses defendidas em Programas de Pós-Graduação vinculados à área de Ciências Humanas e Interdisciplinares, cuja problemática de estudo aborde fenômenos relacionados ao mundo rural brasileiro. Para a premiação, a tese deve ter um recorte teórico metodológico inovador, valorizando as reflexões e os avanços do conhecimento na área das ciências humanas com enfoque rural.

Acesso à tese
Em seu primeiro ano, 2012, a pesquisa “Os saltos do ‘canguru’ nos canaviais alagoanos” contou com o apoio da bolsa ANPOCS, fruto de outra premiação, o  I Concurso BNB/ANPOCS de bolsas de mestrado e doutorado em Ciências Sociais. De 2013 a 2015, Lúcio teve apoio da Fapesp.
A tese na íntegra já está disponível no acervo digital da Biblioteca Comunitária da UFSCar, emhttps://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/7196, e também no link http://bit.ly/2ctEkNg.

 

O trabalho do corte de cana sempre exigiu um grande esforço humano - DIVULGAÇÃO

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