Especial Bombeiros: para eles, o que importa é salvar vidas

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Uma homenagem ao Dia do Bombeiro (02/07) através da história de três mulheres que decidiram dedicar suas vidas para ajudar as pessoas

 ato de arriscar a própria vida para salvar as de outras pessoas faz do bombeiro uma das figuras mais estimadas pela população. Uma unanimidade: é difícil encontrar alguém que não os admire. Para comemorar o Dia do Bombeiro, celebrado neste 2 de julho, apresentamos a história de três mulheres que escolheram ingressar na corporação.Lidiara Beatriz Kurachi Lenarduzzi comanda o grupamento de bombeiros responsável por dez municípios no extremo noroeste do Estado; Roberta Kawasaki Maria deixou de lado a carreira de publicitária para ajudar as pessoas como bombeira; e Cíntia Nardy salvou muitas vidas na linha de frente e comanda atualmente o atendimento de emergência 193. Por meio delas, lembramos todos os que resolveram seguir esta honrada profissão.

Minha segunda família
Formada em Publicidade e Propaganda pela Faap, a 1ª tenente do Corpo de Bombeiros Roberta Kawasaki Maria deixou a profissão de publicitária para descobrir a sua verdadeira vocação no Corpo de Bombeiros. “Sabe quando você não consegue se encontrar? Sempre tive vontade de participar de atividades para ajudar pessoas. Tinha amigos policiais e achei que entrar na Polícia Militar faria eu me encontrar como pessoa e profissional”, afirma.

Deu certo. Roberta resolveu fazer o vestibular para a Academia de Oficiais do Barro Branco, onde fez o curso de quatro anos para se tornar oficial da Polícia Militar. Depois de formada, ingressou no 34º Batalhão de Trânsito. Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de prestar o concurso interno da Escola Superior de Bombeiros, para seguir o que realmente queria. “O Corpo de Bombeiros é a minha segunda família. Passo mais tempo aqui do que em casa. Como comandante de posto, tenho muito carinho pelas pessoas com quem eu trabalho, são muito próximas e estão sempre prontas para ajudar os outroas”, conta Roberta.

Vaca no telhado
Roberta viveu duas situações que guardou na memória, em razão de suas peculiaridades: uma por ser muito curiosa e outra por sua complexidade. Na primeira, em Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, os bombeiros foram chamados para atender uma ocorrência. “Disseram que havia uma vaca no telhado de uma casa e, quando chegamos, o animal de fato estava em cima da residência. Ela foi parar ali porque tinha escorregado de um barranco muito alto, direto para o telhado. A situação era complicada, devido aos fios de energia elétrica e as casas, muito vizinhas umas das outras, era aparentemente impossível remover o animal. Tivemos que utilizar um guincho para levá-la acima dos fios e levantá-la a mais de 15 metros de altura”, conta a oficial.

A outra situação, considerada por ela complexa, se deu quando o seu grupamento foi chamado para apagar um incêndio em uma academia de ginástica, localizada na região central de São Paulo. “As chamas acabaram se propagando para os prédios vizinhos. Era uma hora da manhã, havia muito fogo, e tivemos de retirar as pessoas, muitos eram idosos, tivemos que ajudá-los a descer as escadas. Levamos a madrugada inteira para evacuar todos os moradores e apagar o incêndio”, afirma Roberta.

Superar dificuldades
Cíntia Nardy garante nunca ter passado por situações preconceituosas por ser mulher e servir ao Corpo de Bombeiros. Ela seguiu os passos do pai, policial militar aposentado. Devido a sua influência, prestou o vestibular para a Academia de Oficiais do Barro Branco, foi aprovada e chegou a trabalhar no policiamento de rua após a formatura, antes de ser aprovada para o Curso da Escola Oficial de Bombeiros, em Franco da Rocha. Terminou o curso em 2007, passou oito anos na linha de frente das ocorrências e agora, no posto de capitão, comanda o atendimento do serviço de atendimento de emergências, o 193, do Comando de Operações (Copom) de Bombeiros.

A mulher não enfrenta situações de preconceito, mas a questão física influencia e ela precisa se esforçar para superar essa desvantagem, conta Cíntia. “A gente sempre corre atrás do prejuízo. Da mesma forma que o homem  precisa carregar nos ombros uma vítima de incêndio, a mulher também, o que requer força física. Por isso, ela deve estar sempre bem preparada fisicamente. Se o homem precisa se exercitar, a mulher necessita muito mais”, afirma.

Contra todas as dificuldades enfrentadas e as situações delicadas pelas quais passou, Cíntia sente falta da atuação na linha de frente. Os incêndios são as situações mais difíceis, diz. “Lidamos com ocorrências que resultam em mortes, muitas das vítimas são crianças e adolescentes. Às vezes, a pessoa está dormindo e é surpreendida pelo fogo, nas comunidades carentes há muitos casos de mães e crianças que acabam morrendo. Já passei por ocorrências como essas”, afirma, emocionada.

Mas a atual capitão do Copom conseguiu salvar muitas vidas na linha de frente “É muito gratificante quando se consegue isso”, conta Cíntia. Ela se recorda do caso de um homem com deficiência física que se pendurou na parte externa de uma ponte em uma das vias marginais de São Paulo e ameaçava se jogar de grande altura. Ele se queixava de falta de oportunidade de trabalho e que se sentia incapacitado de trabalhar por ser muito fraco.

Cíntia levou mais de uma hora para convencê-lo a não pular da ponte. “Você acha que não tem força mas conseguiu se pendurar sozinho. Você é forte, diz que não tem força, mas conseguiu subir aí, um lugar tão difícil”. Com esse e outros argumentos, e depois de muita conversa e psicologia, convenceu a pessoa a abandonar a ideia.

Após anos de corporação, Cíntia se declara realizada. “Ajudei bastante a população, principalmente a da Zona Norte, onde atuei por tanto tempo. Pude salvar muitas vidas e esse foi o diferencial de quem está no comando, resolver uma situação difícil, conseguir alcançar os objetivos. No Copom, a experiência que tive nas ruas me ajuda bastante a coordenar as operações de resgate e ajuda”, avalia.

Queria ser enfermeira
A capitão Lidiara Beatriz Kurachi Lenarduzzi tem como responsabilidade comandar a área operacional, política e administrativa do Corpo de Bombeiros, em dez municípios do extremo noroeste do Estado de São Paulo, na fronteira com o Mato Grosso do Sul, região de Andradina.

Na adolescência, a oficial sonhava em ser enfermeira. Mas concluído o Ensino Médio, resolveu prestar o vestibular para a Academia da Polícia Militar do Barro Branco, de formação de oficiais. Era o ano de 2001 e começava a longa carreira como policial militar.

Em 2008, foi aprovada no concurso interno para a Escola Oficial de Bombeiros, fez o curso de um ano e quase uma dezena de cursos de especialização, entre os quais os de salvamento terrestre, mergulho, salvamento em altura, resgate, cobertura vegetal e de risco, e estrutura colapsada (desabamentos, abalos sísmicos, inundações e outros cataclismos).

Começou no Corpo de Bombeiros em São José do Rio Preto, foi promovida a capitão e transferida para Assis, onde passou por um breve período, antes de, finalmente, se fixar em Andradina. Participou de operações de grandes dimensões, entre as quais incêndios e explosões em indústrias, situações de risco de afogamento em grandes profundidades, naufrágios de embarcações e acidentes de trânsito.

“O mais recente foi um incêndio seguido de explosões em uma indústria, que durou mais de 24 horas para ser controlado. Por ser tratar de um grupamento do interior do Estado, a gente não tem o apoio e a rapidez necessárias para enfrentar situações que necessitam de estruturas que os grupamentos das regiões metropolitanas possuem”, afirma.

Lidiara enfrenta com naturalidade os desafios de uma mulher acostumada a comandar um grupamento formado em sua maioria por homens. “No começo enfrentei algum preconceito, mas quando a gente demonstra nossa capacidade nas operações passamos a ser admiradas”, comenta a capitão. “Atuar como bombeiro é um serviço bruto, braçal, que precisa de força física. Mas a gente compensa com recursos técnicos e consegue superar”.

Para Lidiara, ser bombeiro é fazer a diferença na vida das pessoas, quando elas se encontram em estado de debilidade e fragilidade. “O bombeiro não oferece apenas o conforto físico, mas o psicológico, sempre com uma luz no final do túnel. Quando o bombeiro é acionado é porque alguém está em uma situação difícil. O conforto psicológico faz a diferença nesses momentos”, comenta. Segundo ela, o principal desafio do bombeiro é estar preparado física e tecnicamente e com a logística adequada para atender todas as demandas da população.

A instituição
Um incêndio no final do Século 19 na biblioteca da Faculdade de Direito e que atingiu o Convento São Francisco, no Largo do mesmo nome, deu origem em 15 de fevereiro de 1880, a um projeto de lei propondo a criação do Seção de Bombeiros, com apenas 20 integrantes.

A lei foi aprovada em 10 de março de 1880, e marca o aniversário oficial do Corpo de Bombeiros de São Paulo. Em 1890, a Seção de Bombeiros muda para a categoria de Corpo de Bombeiros e o efetivo é ampliado de 64 para 168 homens. Um decreto aprovado na época faz com que as companhias de seguro que operavam na cidade passassem a contribuir com um imposto para manter a corporação.

Em 14 de novembro de 1891, a corporação passa ser denominada oficialmente de Corpo de Bombeiros e a contar com um contingente de 240 homens melhor selecionados. Em 1892, a então Força Militar de São Paulo passa a se chamar Força Policial e agrega o Corpo de Bombeiros. Em 1893, o efetivo que era de 205 homens é ampliado para 323.

A corporação passa por modificações ao longo do tempo para agregar novos equipamentos e fortalecer sua estrutura física. A partir de 1943, começa a expansão para o interior do Estado. Acordos com as municipalidades iniciam o processo de organização estadual.

Hoje, a corporação conta com 9 mil integrantes, entre praças e oficiais, em 20 grupamentos em todo o Estado, sete dos quais estão na capital e Grande São Paulo. A instituição tem a seguinte estrutura física: Comando de Bombeiros Metropolitanos (CBM), Comando de Bombeiros do Interior, com 12 grupamentos, e o 17º Grupamento de Bombeiros – Salvamar Paulista, no Guarujá.

As mulheres só seriam admitidas no Corpo de Bombeiros em 4 de dezembro de 1991, há pouco mais de 25 anos, com a formatura da 1ª turma de 40 bombeiras, conhecidas “pioneiras do fogo”. Hoje, elas representam cerca de 10% do efetivo da corporação. Mas bem antes disso, em 1932, algumas mulheres são incorporadas em caráter temporário na instituição, para suprir a falta de efetivos, que estavam sendo utilizados na frente de batalha durante a Revolução Constitucionalista.

O incêndio do Edifício Andraus, em fevereiro de 1972, e do Edifício Joelma, em fevereiro de 1974, marcam dois acontecimentos dramáticos recentes que representam mudanças importantes na corporação. O aperfeiçoamento da legislação de prevenção de incêndios em São Paulo fez com que o número de ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros, que, na década de 90 eram 80% relativas a ocorrência de incêndios, fosse reduzida atualmente para 8%. Hoje, o maior número de atendimentos está relacionado a outros tipos de eventos.

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